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Infidelidades: multifacetas na quebra do contrato relacional


Pode-se entender a infidelidade a partir de uma variedade de leituras, desde o senso comum com suas crenças - muitas vezes baseadas em concepções preconceituosas, pautadas em valores tradicionais e socialmente enraizados ou, por outro lado, em sua sabedoria milenar - até concepções científicas que se baseiam em diferentes paradigmas com perspectivas de compreensão variadas.

Além disso, o conceito de fidelidade atende em cada tempo histórico, a valores sociais e suas necessidades em termos muito amplos, que envolvem interesses econômicos, políticos, de saúde coletiva e assim por diante. Isso nos mostra a necessidade de um olhar que se volte para a complexidade presente na questão, deixando à vista que na medida em que ocorrem mudanças sociais significativas, os conceitos que remetem às relações amorosas, também se modificam substancialmente, demandando práticas com mudanças de olhar coerentes.

A partir de uma leitura sistêmica, pensar infidelidades (necessariamente no plural), nos aponta uma concepção que se interessa por compreender a multidimensionalidade e a dinâmica contextual presente em cada caso.

Nesse sentido, partindo do princípio de que as infidelidades no âmbito conjugal dizem respeito a uma quebra do contrato relacional, entende-se que pode apresentar múltiplas facetas conferindo significados e desdobramentos diferentes à situação. A compreensão do histórico da relação, dos aspectos psicológicos idiossincráticos dos parceiros, suas heranças transgeracionais e as peculiaridades do contexto em que a infidelidade ocorreu, são elementos contextuais e processuais da maior importância para que a atuação do profissional se dê de forma congruente e integrada.

De forma geral, a complexidade da quebra do contrato relacional, envolve o sentido de traição que, por sua vez (ao menos na maioria das vezes), apresenta a clandestinidade e os segredos como ponto nevrálgico. Esses processos quando vêm à tona, potencialmente mobilizam intensos sentimentos e grande sofrimento não apenas das pessoas envolvidas diretamente na relação amorosa, mas muitas vezes, repercutindo também na família, nos amigos, nas relações de trabalho. Ou seja, nem sempre se restringem ao território doméstico, íntimo, particular. Os processos de judicialização deixam isso muito evidente ao incrementarem um modelo adversarial que potencializa conflitos intensos, jogos de acusação e cabos de guerra que colocam os filhos como a corda que mantem o jogo conflituoso.

Por outro lado, as infidelidades podem assumir facetas que não envolvem necessariamente um/a terceiro/a como amante, por exemplo. A infidelidade financeira ou a infidelidade virtual, não envolvem necessariamente um outro concreto, que tem rosto e nome. Entretanto, ao incluírem desejo, impulso de satisfação de prazer, clandestinidade e traição da confiança, podem ser tão devastadores para a relação quanto a presença física e emocionalmente triangulada na relação conjugal.

Frente a tudo isso, o processo psicoterápico de casais com situações de infidelidades, merece um olhar atento, amplo e despido de preconceitos, para que possibilite uma ampliação da consciência a respeito do contrato quebrado, do que foi traído e da confiança que foi atingida. Sem dúvida, um processo doloroso, que todavia, pode proporcionar importantes aprendizagens tanto para as pessoas em seu desenvolvimento individual, quanto para a relação, possibilitando a configuração de um novo contrato relacional (mesmo que isto signifique a decisão de separação) mais saudável, mais honesto e explicitamente assumido.

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