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O que nos dizem os conflitos familiares que tomam a forma de graves litígios?



Observa-se com preocupação que a judicialização das relações familiares caminha de forma crescente em nossa sociedade. Indício de inúmeros fenômenos sociais que permeiam as relações na atualidade é um preocupante movimento na medida em que têm desdobramentos de grande complexidade na vida de pais, mães, filhos/as, família extensa, famílias reconstituídas, e assim por diante.


Viver em um tempo líquido, como nos diria Bauman (2001)[1], mobiliza: inúmeras impermanências de várias ordens; fluidez constante nas rotinas, crenças, práticas, hábitos, tornando as relações produtos a serem consumidos em ritmo acelerado; fugacidade nos relacionamentos; idealizações de prazer constante; dificuldade de lidar com processos e dor emocional, e por aí afora.


O casamento, a educação dos filhos, os espaços de individualidade e de coletividade não escapam a este movimento do mundo líquido. A liquidez da vida invade as famílias demandando novas subjetividades e novos ritmos relacionais. Os casamentos, onde o “até que a morte os separe” - independentemente do nível de conflitos que apresentem - são raros e, quando presentes, por vezes são vistos com certa desconfiança aos olhos da pós-modernidade. Todavia, o que de fato parece se apresentar como algo preocupante, diz respeito à forma como as pessoas estão se relacionando com as frustrações; como estão lidando com os conflitos relacionais, com as idealizações, com os processos de construção de vínculos, e, portanto, com as vivências afetivas. Na medida em que essas relações incorporam o tom mercantilizado dos tempos líquidos, assumem um lugar fugaz onde os processos emocionais ficam fragilizados.


Relacionar-se em tempos líquidos anuncia inúmeros desafios. Casar de forma saudável nesses tempos exige maturidade, alteridade, responsabilidade adulta, diferenciação das fronteiras entre o que pertence à sua experiência de parentalidade e de conjugalidade. E, além disso, separar também demanda, ironicamente, como primeiro pressuposto, ter-se casado. Obviamente, isto não se refere à formalização da união conjugal, muito menos está se referindo a uniões estáveis, refere-se ao compromisso compartilhado, à relação de lealdade. Quando há este contrato interpsíquico, o que está em pauta na separação é o projeto de vida em comum que se rompe, perde-se. Porém, quando o casamento simbolicamente não ocorreu, o que passa a se vivenciar é a perda de algo que nunca existiu e, muitas vezes, a tentativa de preenchimento deste vazio se dá no litígio.


A judicialização pode mobilizar complexos conflitos que ativam conteúdos subjetivos potencializando atitudes emocionalmente conflituosas, que, por vezes, trazem à tona paradoxos instigantes: separar para casar; odiar por amar; guerrear procurando a paz; rejeitar para aproximar. É uma tentativa de manter o casamento, o vínculo, só que por meio litigio. Tal dinâmica fala, simbolicamente do mal-resolvido, do mal-digerido, do mal-acabado, e, desse modo, e em última instância, do mal- vivido.


Frente a esse panorama, algumas iniciativas têm sido pauta de práticas em diferentes áreas de atuação, sendo a psicologia uma protagonista importante no cenário interdisciplinar. E não poderia ser diferente, pois, a busca de resolução de conflitos de inúmeras ordens que se mantêm por meio do contexto jurídico a partir da dinâmica de judicialização, fala essencialmente da subjetividade, da dinâmica emocional dos envolvidos, muito mais do que das racionalizações que o ordenamento jurídico busca propor.


Nesta seara, as parcerias interdisciplinares são sem dúvida, espaços muito bem-vindos, pois, mesmo em tempos líquidos, há algo que não deveria se esvair: a família como espaço de amor, proteção e aprendizagem do processo de se tornar humano.


[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

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